Memorial da Infância
Memorial da Infância
È bastante complicado falar sobre acontecimentos passados, sobre a infância, lembranças da vida da gente. Algumas lembranças são bastante intimas, então surge certa dificuldade em relatar sobre, ou também tem lembranças que nos trazem certo desconforto ao recordá-las. Nem todas as memórias são prazerosas. Bem vamos lá.
As pessoas que entrevistei são meus pais: Arno Bruno Kranz e Célia Josefina Kranz ; ele esta com 78 anos, ela 75 anos de idade. Foram e ainda são pequenos agricultores, residentes em Alfama, interior de Montenegro (zona rural)
Quando falei que precisava da ajuda deles para buscar lembranças do passado, da minha infância acharam engraçado e sorrindo disseram:
Ah filha, isto faz tanto tempo. Será que vamos lembrar? Vocês eram dez crianças. Como vamos trazer à memória os acontecimentos importantes da tua infância?
Inicialmente tive que estimula-los conversar sobre situações que ocorreram com meus irmãos mais velhos, e aos poucos, entre uma e outra confusão mental e temporal, foram contando seguindo os questionamentos feitos a eles.
Segundo mamãe, o dia dezessete de fevereiro de mil novecentos e sessenta e dois era um sábado lindo e ensolarado, eu nasci às vinte e uma horas daquela noite. Fui um bebê muito grande, pesei cinco quilos e cem gramas, por isso ela sofreu muito e passou mal. Eu nasci em casa com o auxilio de uma parteira. Eu era a primeira menina, depois de cinco meninos, então diz papai que era uma festa a minha chegada. No dia seguinte vovó deu-me o primeiro banho, tinha como platéia meus irmãos muito curiosos, todos queria ver a diferença entre menino e menina. Vejam vocês, que sapecas!
Chegou o mês de março e o inicio das aulas, meus irmãos: Flavio, Celso, Marcos e Magnos estavam radiantes a contar a novidade da chegada da meninha para a professora e colegas.
Aproximadamente um ano depois, fevereiro de sessenta e três comecei a falar as primeiras palavras e só em julho daquele ano comecei a caminhar. Meus pais já estavam preocupados com a demora, pois estava com dezoito meses de vida. O motivo do atraso no andar foi em função do peso, diz mamãe.
Em janeiro de sessenta e quatro meu irmão Renato sofreu a Paralisia, Infantil e perde os movimentos motores, na época tinha quatro aninhos de idade. Mamãe ficou triste ao lembrar deste momento e ambos, papai e mamãe se emocionaram, pois disseram reviver aquele momento é doloroso para eles e que não gostam desta lembrança. Foi uma grande luta, tenho vagas lembranças do meu pai carregando-o todo mole nos braços indo em busca de recurso para a enfermidade dele. Em junho do mesmo ano, Renato começa a recuperar parte dos movimentos motores. Segundo meus pais foi uma vitória para toda a família, amigos e vizinhos.
Vinte e quatro de julho de mil novecentos e sessenta e cinco, nasce a mana Marines. Em novembro do mesmo ano, meus avós paternos comemoram as Bodas de Ouro, foi uma grande festa. Eu chorei muito, porque tinha medo de tirar fotografia. Meus irmãos e primos estavam todos na festa e se divertiram muito. Em dezembro do mesmo ano meu irmão Magnos teve Tétano. Foi outro momento triste de nossa vida, quase o perdemos.
Janeiro de sessenta e seis, nasce minha irmãzinha Isabel, deste nascimento lembro bem. Papai nos levou à casa da vovó em quanto ela nascia, sim, porque ela também nasceu em casa, por isso, a cada nascimento nos tínhamos que passar o dia ou a noite na casa da vovó. Neste mesmo ano meu reformamos a nossa casa. Meu avô materno colocou as janelas e portas definitivas, antes havia tampões substituindo ambas. Lembro de como nossa casa ficou linda!
Maio de sessenta e sete, falece meu querido vovô materno. Esta memória me deixa triste, pois ela vem viva em minha mente, eu só tinha cinco anos, mas tenho todas as lembranças; do caixão descendo ao túmulo, do barulho da terra caindo sobre o caixão, as pessoas chorando na procissão do funeral e todas vestidas de preto. Isto marcou muito.
Em agosto do mesmo ano, meu avô paterno vem a falecer, também. Neste sepultamento meus pais não me levaram, lembro que fiquei com a vovó materna.
Em dezembro, naquele Natal, eu e minhas irmãs ganhamos lindos chapéus, o meu era rosa. Nossa como fiquei feliz! E, depois do Natal, dia vinte e seis de dezembro, nasce meu irmão César. Ele nasceu no hospital Montenegro, mamãe ficou dois dias hospitalizada em função do parto, eu senti muita saudade, pois nunca havia ficado tanto tempo longe dela.
Março de sessenta e oito chega o grande dia, deste eu recordo até do cheiro, que tinha na sala de aula. Ingressei na escola, na primeira série, como ouvinte, porque não havia pré - escola. Ia acompanhada à escola, de meus irmãos mais velhos do que eu. Caminhávamos dois quilômetros até chegar à escolinha, era uma fulia. Em março do ano seguinte cursei então, a primeira série. Lembro que a classe era multi-seriada, e a professora tinha uma régua muito grande de madeira, caso houvesse bagunça ou conversa ela batia com essa régua nas mãos da gente. Eu tinha muito medo dela, até de falar meu nome.
Em novembro de mil novecentos e setenta, fiz a Primeira Eucaristia, tinha quase nove anos de idade e estava na terceira série e no ano de setenta e dois cursei a quarta série, sempre na mesma escola. Esta escola ainda existe lá na localidade e continua multi-seriada
E, assim poderia ficar horas juntando memórias, mas como devo falar somente sobre as memórias dos meus primeiros dez anos de vida, então é isso.
Anete Terezinha Severo
Comments (1)
Anonymous said
at 7:00 pm on Jul 27, 2007
Oi Anete,
Bacana a sua historia... familia grande... Ao relembrarmos o passado dificilmente teremos 100% de lembranças boas... Mas os altos e baixos fazem parte da nossa vida. Alias, isso é a vida acontecendo...
Grande abraço,
Fabi
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